CÓDIGO MORSE

"Chamando a todos. Este é nosso último grito antes do nosso eterno silêncio." Surpreendentemente essa mensagem que se espalhou pelas ondas de rádio em pontos e traços do Código Morse em 31 de janeiro de 1997 não foi uma transmissão desesperada de operador de rádio em um navio prestes a afundar. Em vez disso foi uma mensagem que sinalizava o fim do uso do Código Morse para pedidos de socorro nas águas francesas.

O Código Morse foi, com efeito, o protocolo de rede para a primeira Internet do mundo: a rede internacional de telégrafo, cujos cabos envolviam o globo na segunda metade do século XIX.

...uma tecnologia normalmente associada a operadores de rádio em navios ameaçados de afundar...

O primeiro resgate marítimo após um pedido de socorro enviado por radiotelegrafia ocorreu em 1899, quando um farol flutuante nos estreitos de Dover relatou o encalhe do Elbe, navio a vapor.

Obs: Fragmentos da matéria publicada no Caderno de Cultura do Jornal Gazeta Mercantil, em 12.02.1999.

Nos dias atuais existem eventuais relatos de resgates auxiliados pelo uso do código Morse.

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Matéria Completa:

"Chamando a todos. Este é nosso último grito antes do nosso eterno silêncio." Surpreendentemente essa mensagem que se espalhou pelas ondas de rádio em pontos e traços do Código Morse em 31 de janeiro de 1997 não foi uma transmissão desesperada de operador de rádio em um navio prestes a afundar. Em vez disso foi uma mensagem que sinalizava o fim do uso do Código Morse para pedidos de socorro nas águas francesas. Desde 1992, os países ao redor do mundo vêm desativando seus equipamentos de Morse com despedidas (embora menos poéticas), à medida que a navegação mundial migra para um novo sistema, baseado em satélites, o Sistema Global de Emergência e Segurança Marítima (GMDSS). O prazo final para a troca para novo sistema foi 1º de fevereiro último, data considerada "fim de uma era".

Os pontos e traços não morrerão por completo - eles continuam a ser usados por operadores de rádio amador, espiões e alguns membros das forças armadas, mas a troca pelo GMDSS marca o fim da última utilização internacional significativa do Morse. O código, entretanto, teve períodos de sucesso. Desde suas origens em 1832, quando um inventor americano chamado Samuel Morse começou rabiscando em seu caderno de anotações o código se transformou no padrão mundial para o envio de mensagens por cabo e posteriormente por ondas de rádio. O Código Morse foi, com efeito, o protocolo de rede para a primeira Internet do mundo: a rede internacional de telégrafo, cujos cabos envolviam o globo na segunda metade do século XIX.

Para uma tecnologia normalmente associada a operadores de rádio em navios ameaçados de afundar, a idéia do Código Morse teria ocorrido a Samuel Morse quando estava a bordo de um navio que cruzava o Atlântico. Na época, Morse era pintor e inventor ocasional, mas quando outro dos passageiros do navio o informou sobre recentes avanços em teoria elétrica, Morse foi tomado repentinamente pela idéia de construir um telégrafo elétrico.

Outros inventores vinham tentando fazer justamente isso durante a maior parte do século. Morse conseguiu e agora é lembrado como "o pai do telégrafo", em parte graças a sua obstinação - levou 12 anos, por exemplo, antes que conseguisse dinheiro do Congresso americano para construir sua primeira linha de telégrafo, mas também por motivos técnicos. Comparados com os projetos concorrentes de telégrafo elétrico, como o telégrafo de agulha desenvolvido por William Cooke e Charles Wheatstone na Inglaterra, o projeto de Morse era muito simples: exigia pouco mais do que uma "chave" para enviar mensagens, um receptor acústico para captá-las e um cabo ligando os dois. Mas, apesar do equipamento de Morse ser simples, havia um problema: para poder usá-lo os operadores tinham de aprender um código especial de pontos e traços que ainda leva seu nome.

Originalmente, Morse não pretendia usar combinações de pontos e traços para representar letras específicas. Seu primeiro código, esboçado no seu caderno de anotações durante a viagem transatlântica, usava pontos e traços para representar algarismos de 0 a 9. A idéia de Morse era que as mensagens consistiriam em séries de números correspondentes a palavras e frases em um dicionário especial numerado. Mas Morse abandonou posteriormente esse plano e, com a ajuda de um associado, Alfred Vail, criou o alfabeto Morse, que podia ser usado para soletrar mensagens letra por letra.

No começo, a necessidade de aprender esse código aparentemente complicado fez com que o telégrafo de Morse parecesse difícil, em comparação com outros projetos que facilitavam a operação. O telégrafo de Cooke e Wheatstone, por exemplo, usava cinco agulhas para picotar letras em uma malha com formato de diamante. Mas também exigia cinco cabos entre as estações de telégrafo. O telégrafo de Morse precisava de apenas um. E algumas pessoas tinham uma facilidade natural pelo Código Morse.

A medida que a telegrafia elétrica decolava no começo da década de 1850, o telégrafo de Morse se tornou rapidamente dominante. Foi adotado como padrão europeu em 1851, permitindo ligações diretas entre as redes de telégrafo de diferentes países. (A Inglaterra preferiu não participar, mantendo os telégrafos de agulha por mais alguns anos.) Por essa época, o Código Morse tinha sido revisto para permitir acentos e outros caracteres estrangeiros, resultando na ruptura entre o Morse americano e o internacional, que continua até hoje. Nos cabos submarinos internacionais, oscilações à esquerda e à direita de um feixe de luz refletido de um pequeno espelho rotativo eram usadas para representar pontos e traços.

Enquanto isso, uma subcultura telegráfica distinta estava emergindo, com seus costumes e vocabulários próprios e uma hierarquia baseada na velocidade com que os operadores conseguiam enviar e receber Código Morse.

Os operadores de primeira classe, que conseguiam enviar e receber a velocidades de até 45 palavras por minuto, conduziam o movimento da imprensa, obtendo os empregos mais bem remunerados nas grandes cidades. No fim da hierarquia estavam os operadores rurais lentos e inexperientes, muitos dos quais trabalhavam nas linhas como empregados de jornada reduzida.

À medida que seu Código Morse melhorava, no entanto, os operadores rurais descobriam que sua recém-obtida habilidade era o passaporte para salário melhor em emprego na cidade. Os operadores de telégrafo logo aumentaram as fileiras das classes médias emergentes.

A telegrafia também era considerada atividade apropriada para mulheres. Em 1870, um terço dos operadores no escritório da Western Union em Nova York, maior escritório de telegrafia nos Estados Unidos, era do sexo feminino. Assim como os operadores habilidosos conseguiam se reconhecer mutuamente através dos cabos por seu estilo de Código Morse, muitos operadores alegavam ser capazes de reconhecer as operadoras. Inevitavelmente, romances foram iniciados através dos cabos - assim como acontecem hoje, por e-mail. Houve até um punhado de casamentos por telégrafo.

Em uma cerimônia dramática em 1871, o próprio Samuel Morse deu adeus à comunidade mundial de operadores de telégrafo que ajudou a criar. Depois de um abundante banquete e muitos discursos aduladores, Morse sentou-se à mesa de um operador e, colocando seu dedo sobre uma chave ligada a cada cabo de telegrafia nos Estados Unidos emitiu com batidas sua despedida final diante do público que o aplaudia de pé.

Na época de sua morte em 1872, o mundo estava bem e verdadeiramente conectado por cabo: mais de 1.040 quilômetros de linhas telegráficas e 48 mil quilômetros de cabos submarinos estavam pulsando com Código Morse; e 20 mil cidades e povoados estavam ligados à rede mundial. Assim como a Internet é hoje chamada freqüentemente uma "super-rodovia da informação", o telégrafo foi descrito na sua época como uma "rodovia instantânea do pensamento".

Mas, na década de 1890, o auge do telégrafo de Morse como tecnologia de ponta estava chegando ao fim, com a invenção do telefone e a ascensão de telégrafos automáticos, precursores da teleimpressora (telex), nenhum dos quais exigia perícia na operação. O Código Morse, entretanto, estava para receber nova extensão de vida, graças a outra nova tecnologia: a telegrafia sem fio.

Depois da invenção da radiotelegrafia por Guglielmo Marconi em 1896, seu potencial para uso no mar ficou rapidamente aparente. (* No Brasil, em São Paulo, em 1893 e 94, o genial Padre Roberto Landell de Moura realizava suas experiências, com êxitos, da transmissão, sem fios, por ondas eletromagnéticas e luminosas, da telegrafia e da fonia.)

Pela primeira vez, os navios podiam comunicar-se entre si, e com a terra, independentemente do clima, e mesmo quando estavam fora do alcance visual. Em 1897, Marconi conseguiu enviar com sucesso mensagens de Código Morse entre uma estação terrestre e um navio de guerra italiano à distância de 19 quilômetros. O primeiro resgate marítimo após um pedido de socorro enviado por radiotelegrafia ocorreu em 1899, quando um farol flutuante nos estreitos de Dover relatou o encalhe do Elbe, navio a vapor. Dois anos depois, Marconi mandou o primeiro sinal de rádio transatlântico: três pontos, a letra "S" no Código Morse. Em 1910, equipamentos de rádio Morse eram comuns em navios.

O afundamento do Titanic em 1912, entretanto, ressaltou a necessidade de operadores de rádio para ficar o tempo todo à escuta de pedidos de socorro. Após o desastre, constatou-se que o navio Californian estivera a apenas alguns quilômetros de distância, e centenas de vidas podiam ter sido salvas se o operador de rádio do navio estivesse de serviço e, assim, pudesse receber o pedido de socorro "SOS" do Titanic. Na primeira Convenção Internacional de Segurança de Vida no Mar (Solas), realizada em Londres em 1914, chegou-se ao acordo de que os grandes navios deveriam mais escuta de rádio 24 horas por dia.

Esta regra permaneceu desde então, com as subseqüentes convenções Solas, introduzindo gradualmente novas regras para acompanhar o desenvolvimento de tecnologia como a radiotelefonia. O advento da tecnologia de satélite levou a Organização Marítima Internacional a emendar a convenção Solas em 1988 a introduzir GMDSS, um sistema automático de comunicações de emergência baseado em ligações por satélite e rádio.

Operando desde de 1992, o equipamento GMDSS é compulsório em escala mundial desde 1º de fevereiro em todos os navios que excedem 300 toneladas, transportam 12 passageiros (ou mais) ou naveguem em águas internacionais. (Os proprietários de navios menores podem instalar o equipamento se desejarem.) Com o GMDSS, qualquer pessoa a bordo de qualquer navio em emergência precisa meramente apertar um botão para mandar um pedido de socorro contendo o número de identificação da embarcação e sua localização precisa - não há necessidade de operador especializado de Morse. Assim, depois de quase 170 anos, o Código Morse finalmente submergirá nas ondas.

No que diz respeito a protocolos de comunicações, o Código Morse durou um período surpreendentemente longo. Deste modo, como poderia seu descendente moderno, o protocolo da Internet (TCP/IP) , se compara a ele? O TCP/IP foi criado em 1973, por Robert Kahn e Vinton Cerf (um homem com prestígio parecido com o de Morse, considerado "pai da Internet").

Assim como o Código Morse antes dele, o TCP/IP está sendo melhorado para responder a novos desafios e tecnologias. Seu sistema de endereçamento está sendo reformulado para abrir espaço a bilhões de ligações adicionais e comportar os dispositivos sem fio que deverão proliferar nos anos vindouros e permitir que até os eletrodomésticos se liguem à rede. Cerf também está trabalhando uma forma de estender a Internet a outros lugares como a Lua e Marte, já que os atrasos enquanto os sinais de rádio viajam pelo espaço, tornam o atual protocolo inadequado.

Melhorias adicionais virão: como é falado por computadores, e não por seres humanos, o TCP/IP pode ser adaptado com mais facilidade. Mesmo assim, no mundo da computação é improvável que o TCP/IP permaneça em uso contínuo por um século e meio, como conseguiu o Código Morse, seu ancestral.


Obs.:
Matéria publicada no Caderno de Cultura do Jornal Gazeta Mercantil, em 12.02.1999.